Noivo Nu
Francisco Marques
Quando as garotas passaram por mim, olharam meu pênis, riram e fizeram comentários debochados e escandalosos, foi que eu me dei conta a que ponto eu havia chegado. Devia passar das três da manhã, e eu estava completamente nu andando sem rumo pela quase deserta Barata Ribeiro.
A essa hora eu devia estar tomando banho, depois da primeira transa como casado. Devia estar ajeitando as meias na mala e ansiando pelo voo para Nova York, local escolhido para nossa Lua de Mel. Mas agora, não há mais nada.
Devo começar contando que minha ex-futura mulher, de nome Heloísa, é a coisa mais gorda, mimada, feia e insuportável que já conheci até hoje. Filha de um dos diretores da principal extratora de minério da região sudeste, desde de cedo sempre teve tudo que queria.
Quando fui apresentado a ela eu tinha apenas vinte anos. Tinha acabado de fazer uma prova merda de física, na época eu cursava engenharia química na PUC, e havia decidido beber pra aliviar o estresse num barzinho da Gávea. Estava pela metade do meu quarto copo de chope quando Renato, que era meu amigo, adentrou o bar acompanhado de duas garotas. Ele veio direto a mim, e sem pedir licença, sentou-se a minha mesa logo após uma breve apresentação das meninas que sentaram logo em seguida. Renato disse à elas que eu era seu melhor amigo e que eu era um excelente pintor. Fabiana, que tinha uma irresistível cara de ninfeta pornô, ergueu as sobrancelhas e se resumiu a disser um curto “legal!”. Já Heloísa, a quem dispenso descrições, parecia empolgada com a revelação: “serio?! Mas você segue que estilo?”, “gosta de Renoir?”, “E Van Gogh?”, “E salvador Dalí?”, “E Picasso?”, “E Portinari?”... Perdi a conta no quadragésimo segundo.
Logo após Fabiana terminar de contar suas histórias sobre a época em que estudava em Londres, Renato se levantou da mesa e pediu que eu o acompanhasse dizendo que eu precisava ver alguma coisa que ele fez no carro. Lógico que aquilo era só uma desculpa idiota pra ele me tirar da mesa e a sós me contar seus desejos de levar Fabiana pra cama e da necessidade de eu pegar a amiga dela. Contou-me que Fabiana e Heloísa eram amigas inseparáveis, e que Fabiana nunca ficava com ninguém se a amiga também não tivesse um acompanhante.
Acontece que uma semana depois estávamos Renato e eu esperando-as em frente de uma boate na Barra. Elas atrasaram cerca de uma hora, e quando chegaram pude ver, mesmo a uma distancia considerável, a silhueta gorda e disforme de Heloísa se contrastando com o atlético corpo de Fabiana. Parecia injusto, eu ia ter que aturar uma gorda feia enquanto ele se dava bem com a ninfetinha. Mas eu tava em divida com o Renatão, e afinal, o que a gente não faz pelos amigos?
Por volta das duas da manhã as historias londrinas de Fabiana já revelavam as pequenas orgias no alojamento dos estudantes e também a vez que foi para cama com dois caras . Renato, que passara a noite embebedando a moça, viu que hora de agir, então convenceu a segui-lo até o carro. Nesse momento Heloisa, que estava no banheiro, retorna e pergunta sobre a amiga. Eu respondo que eles foram pegar bebidas. Ela rir e diz que eu não preciso mentir pra ela, que há muito tempo ela tinha sacado o planinho do Renato de comer a amiga dela e que os viu indo em direção a saída. Aquilo não me chocou, realmente eram claras as intenções de Renato, alias essas seriam as intenções de qualquer um que conhecesse uma mulher como Fabiana. Então, me vendo em silencio ela se aproxima do meu corpo e com a boca perto dos meus lábios ela me pergunta se eu não estou a fim de fazer o mesmo com ela. Eu a empurro pro lado e tentando por minha cabeça pra inventar desculpas digo que minha religião não permite que eu me envolva com mulheres antes do casamento. Ela olha incrédula, também porque naquela época eu tinha um “safado” estampado na testa, e me convida pra dar uma saída, porque a fumaça da boate já estava começando a sufocá-la.
Sentamos numa mureta de concreto que separava o estacionamento da rua, ela ao meu lado, puxou um cigarro, perguntou se eu me incomodava, disse que não, e ela começou a tragar. Contou-me que só fuma quando está nervosa e perguntou se eu realmente a achava repugnante. Eu respondi que todas as mulheres, como criaturas divinas, são dotadas de uma beleza especial, e que só elas podem conceber a vida e que nenhuma pode se considerar repugnante. Ela disse que não queria saber de “todas a mulheres”, que queria saber dela, se ela despertava algum desejo em mim. Fui sincero e respondi que ela não fazia o gênero de mulher que eu costumava ficar mas que ela era interessante sim. É a partir desse ponto que começa toda minha ruína, porque ela não parava de lamentar de sua vida de desencontros e que sempre fora perseguida por sua aparência, e eu me vendo naquela situação não achei alternativa a não ser beijá-la boca.
No dia seguinte Renato me contou que Fabiana nem era essas coisas na cama, muita propaganda pra pouco produto. Eu contei que beijei Heloísa, e a reação de Renato foi totalmente inesperada para mim, eu achava que ele iria rir ou fazer qualquer brincadeirinha, mas não, ele simplesmente ficou calado e saiu porta a fora como um louco.
Foi nessa mesma semana que Pedro, o dono do apartamento em que vivo aqui no Rio, bateu a minha porta para me cobrar os três meses de aluguel atrasado. Respondi que era pra ele ter um pouco de paciência, que no máximo em uma semana minha família estaria me enviando dinheiro. Ele apontou o dedo na minha cara, disse que eu não estava falando com um moleque e que já tinha um casal, que com certeza daria melhores pagadores que eu, querendo ver o imóvel.
Eu era fruto de uma decadente classe média mineira. Quando terminei o segundo grau ficou decidido que eu faria a faculdade no Rio e desde então eles me enviam uma certa quantia para que eu possa pagar a faculdade, aluguel, livros, alimentação, essas coisas... Mas acontece que de uns tempos pra cá a situação piorou muito, e eu era obrigado a fazer uns bicos pra completar o orçamento além de ouvir de meus pais que era grande a possibilidade de eu ter que abandonar a faculdade por uns tempos pra ajudar a família nos negócios em Minas.
Era fato que eu precisava de dinheiro, e rápido. É engraçado que quando você se vê nessas situações as ideias mais bizarras sempre aparecem pra dar um “oi”. Pensei em sequestrar algum riquinho e depois pedir um resgate milionário, pensei em roubar um banco, pensei em traficar armas e drogas, e quando já estava chegando no “prostituir-se” a campainha tocou. Atendi com um pouco de receio e me surpreendi ao vê Heloísa parada em frente à porta.
Ela me cumprimentou me dando um beijinho de cada lado e depois perguntou se podia entrar. Respondi que claro, abrindo passagem, e pedi pra que não reparasse na bagunça. Ela falou que não estava ali pelo meu apartamento, mas sim pelo morador dele. Fiquei em silencio. Sentou na minha cadeira de praia,que vivia armada perto da televisão, e disse que precisa de uma ajuda minha e que se eu soubesse como ajudá-la, ela saberia retribuir muito bem. Contou que seu pai acabara de fechar um negocio milionário com uns empresários suíços, e que era necessário um jantarzinho com as famílias para selar o formalismo. Então me pediu que eu a acompanhasse nesse jantar, que fingisse ser seu namorado, só para não dar a aparência que a filha de uns dos maiores empresários brasileiros era uma largada desinteressante.
Lógico que aceitei. O jantar foi longo e monótono, mas eficaz para eu relembrar as aulas de etiqueta que tive durante minha adolescência. Isso sem falar no meu “cachê”, que foi suficiente para pagar o aluguel por cinco meses e me sustentar por mais uns dois. Foi nesse dia que eu tive o grande estalo. Enquanto descalçava meu sapato pensei que poderia me dar bem bancando o namorado da gordinha. Não me importaria nos apelidos que viesse a receber desde que ela me bancasse.
Nunca me senti mal por isso. Aliais, nunca cometi pecado algum eu simplesmente dava o que ela queria ,um pouco de afeto (fingido, claro!) enquanto eu recebia em espécie. E se você parar um pouco pra pensar vai logo reparar que tudo gira em torno de interesses, ninguém vai se aproximar de você por nada. O segredo do nosso bom relacionamento talvez fosse esse, ninguém enganava o outro com sentimentalismos e outras babaquices.
Mas como eu sempre digo, você nunca conhece uma pessoa até ela te foder todo. Depois de três anos Heloísa me propõem casamento, afirmou que eu não precisava ser fiel nem nada, apenas pediu que eu mantivesse a postura na frente da família dela e que não faltasse aos compromissos... o que eu podia querer mais? Aceitei. Acontece que na madrugada que precedia o casamento, por volta das duas da manhã, o telefone tocou e uma voz abafada e entrecortada por soluços me contou que Fabiana estava desmaiada e que não havia mais ninguém na casa além dela própria e de Fabiana. Identificou-se como sendo a empregada da casa e pediu pra eu ir logo, que não sabia o que fazer, que o único numero que ela achou na agenda foi o meu e tal... Falava de um jeito embolado e confuso, ela realmente parecia nervosa. Prometi me apressar e desliguei o telefone. Então desci correndo pra garagem, tirei o carro e voei pra Copa.
Nunca achei que iria me preocupar tanto com uma mulher, mas o fato é que quase bati umas quatro vezes, e atropelei o carrinho de supermercado cheio de tralhas que um mendigo carregava. Estacionei de forma totalmente irregular e acho que nem fechei as janelas. Subi as escadas correndo, algum imbecil devia estar prendendo-o no décimo andar, e antes que eu pudesse dar por mim já estava socando a porta do apartamento de Fabiana. Não demorou muito para que uma senhora de meia idade abrisse a porta e me levasse até a porta do quarto da moça.
Entrei com tanto ímpeto que demorei um tempo para perceber que Fabiana estava completamente nua, deitada de bruços sobre a cama. Perdi um tempo observando seu corpo, suas curvas, seu rostinho tão belo de menina sapeca, as bochechas levemente rosadas... Coradas... Foi ai que me lembrei por que estava ali. Virei-a de frente e antes que descesse minha vista até seus seios pressionei meu indicador e o médio contra sua jugular. Senti o sangue dela pulsa por de baixo de sua pele, me aproximei pra ouvir sua respiração, e o que ouvi foi uma risada... Um risinho de menina debochada que acabara de pregar uma peça.
Inicialmente puto, porque ela tinha me feito de trouxa, pulo da cama e interrogo o por quê daquilo. Ela sorri de um jeito provocativo e diz “quer mesmo saber? Então tira a roupa que eu te explico”. Isso era apelar de mais. Homens são burros, e eu há muito tempo já tinha parado de pensar com a cabeça de cima. Então obedeci e me despi por completo.
Ela sorria, e eu me sentia como um adolescente realizando um sonho erótico. Eu me abaixei e comecei a beijar suas coxas quentes até que um objeto gelado e de formato cilíndrico foi pressionado contra minha nuca. Depois veio uma voz nojenta e familiar sussurrando ao meu ouvido um “se fudeu, amigo!”. Imediatamente Fabiana começou a se arrumar. Era tudo um plano, um plano sujo e escroto... mas pra que? A mando de quem?
Renato, o filho-da-puta que eu considerava amigo e que agora apontava uma arma pra minha cabeça, dizia rindo, num tom que eu jamais ouvi, “se divertiu? A gente também, agora sai.” Eu disse, tentado manter a calma tanto minha como do Renato (ou sei lá que nome ele realmente tenha), que não poderia sair assim, daquele jeito. Ele mandou eu me foder de novo, e que essa era que a graça da brincadeira. E antes de me deixar sair pela porta me disse, tão próximo ao meu rosto que eu podia sentir o cheiro da maconha que impregnava suas roupas, que agora a Heloísa me odiava, que não era certo eu ter roubado três milhões dos cofres da família dela, e que ela que pensara na brincadeirinha... Mas com certeza não foi ela que pensou em me incriminar, não foi seu filho-da-puta? Tu sabe que eu não roubei porra nenhuma... Ele me deu uma coronhada que abriu meu supercílio e depois voltou a rir como um louco. Então aproveitei sua distração, derrubei-o no chão, a arma voou uns dois metros e parou perto da escrivaninha. A vadia da Fabiana que estava o tempo todo no quarto, se adiantou pra Pegá-la, mas fui mais rápido e dei um soco em sua têmpora. Ela caiu desacordada, e eu aproveitei pra pegar o revolver, Renato veio pra cima de mim de novo e eu atirei duas vezes em seu peito deixando morto ao lado do corpo de Fabiana.
Não pensei em pegar roupa nem nada. Meu corpo tremia todo. A boca estava seca. Tinha que sair dali. Então, completamente nu, sai pela porta da frente e a deixei aberta.