* Quase amei Rosana

Quase amei Rosana



Rosana era sem duvida a mulher mais gostosa que eu já tinha ficado. Era uma mulata peituda, de coxas grossas e olhos cor de mel que me deixavam louco.

Confesso que me sentia em desvantagem, era só um crioulo magrelo e pobre do lado de um mulherão. Acho que todos olhavam e se perguntavam o que ela estaria fazendo comigo quando andávamos juntos.

Sexta passada ia fazer um mês que estávamos juntos e ainda não havíamos passado dos amassos no portão da casa dela. Isso estava me fazendo mal, chegar tão perto, ter tudo aquilo na mãos e não poder ir para os finalmentes...

Precisávamos de um lugar. E urgente. E como casa de pobre nunca está vazia eu tinha que pensar em outro. Não tinha grana pra motel, nem cara de pau pra entrar a pé (já que não tinha carro), as vezes dava muita vontade de entrar no primeiro taxi que passasse e disser : “toca pro motel mais próximo”. Mas cade a grana pra isso?

Na sexta passada a solução surgiu como que de para-quedas:

“Claudinho, tem como você fechar a loja hoje?” Perguntou seu Evaristo, dono da loja em que trabalho. “Vou ter que sair mais cedo, a chave vai ficar contigo, ok?”

A primeira coisa que pensei foi: “vou ter que chegar cedo na segunda pra abrir essa porra”, mas depois me veio a cabeça que ali estava a uma boa oportunidade conseguir avançar alguns estágios na minha relação com Rosana.

“Tá ok, seu Evaristo. Deixa comigo!”

Nunca uma sexta feira demorou tanto pra passar como aquela. Mandei uma mensagem para o celular de Rosana marcando um barzinho ali perto.

Às 15:00hs seu Evaristo foi embora, deixando-me sozinho na loja. Para meu desespero ninguém aparecia para comprar nada e custou semanas para o relógio marcar 17:00hs. Tava tão ansioso que quando finalmente fechei a loja tive que ir ao banheiro para dar uma aliviada. Mulata perfeita, corpinho dessas menininhas que possam na playboy, e estaria comigo!

Antes das seis eu já estava no bar. Esperei um pouco sozinho e de repente ela surgiu, mais gostosa que nunca, numa sainha que... deixa pra lá. Ela me beijou (senti os olhares dos outros marmanjos queimando a minha nuca de inveja) e sentou-se na minha frente.

Pedimos dois chopes: um claro para mim e um escuro para ela. Começamos a conversar, nosso grau de intimidade havia crescido tanto que ela já estava se sentindo livre para falar que a amiga havia pedido absorvente emprestado.

Absorvente. Caralho, será que ela tá de chico? Quase nenhuma topa ir pra cama estando naqueles dias.

__ Você está menstruada?__ Perguntei.

__ Hãm? __ Ela rebateu fazendo cara de quem não entendeu.

__ Você está menstruada? __ Repeti.

__ Não... Você não tá prestando atenção, isso aconteceu semana passada __ Ela parou um pouco, inclinou a cabeça __ Mas por que essa pergunta?

__ Ah, nada...

__ Nada? Nada mesmo? __ Ela fez uma carinha de safada nessa hora.

__ É, nada... __ Tentei esquivar, tava ficando sem graça.

Não me admirava ter transado tão poucas vezes. Era feio, pobre e terrivelmente tímido. Nem sei como Rosana se interessou por mim. Devo ter vendido a alma e nem me lembro, só pode.

__ Me conta o que você esta planejando? Essas perguntas assim...

Fiquei calado e pedi outro chope. Bom, pelo menos ela não estava menstruada e de certo modo senti interesse por parte dela.

O assunto mudou para alguma coisa que tava passando na televisão na hora, acho que era sobre um comercial de xampu, mas isso não importa. Depois da quarta tulipa pedi a conta.

Ela disse que tava querendo ir num pagode lá perto da casa dela. Respondi de imediato que sim. Ela estranhou. E depois emendei dizendo que antes precisava passar na loja pra pegar uma coisa que deixei sobre o balcão.

__ O que você deixou lá? __ Ela quis saber.

__ Nada de importante. __ respondi

__ Então pega outro dia.

Então olhei bem nos olhos caramelados dela e disse:

__ Era para ser surpresa, mas como já estraguei tudo mesmo...

__ O quê é?

__ É algo bobo, mas acho que você vai gostar. Comprei pensando em você.__ Não havia nada a ser entregue exceto eu.

__ Serio? Ahh, não precisava. Sei que você não ganha muito, nada a ver ficar gastando comigo.

Naquele instante eu não tinha reparado que ela havia me chamado de fodido sem-renda. Pensava em sair dali e tirar as calças. Só isso importava.

Andamos por dois quarterões até chegarmos na amendoeira na calçada em frente a loja. Naquela arvore comecei a esquentar: beijos compridos e mãos que corriam por dentro da blusa e que ameaçavam desabotoar a saia justa. Parei quando meu pé afundou um pouco na terra mole e me lembrei das vezes que urinava ali voltando dos botecos tarde da madrugada.

Desliguei o alarme da loja e abri o portão que dava para a área externa e desocupada. Entramos e caminhamos até porta lateral. A calça bem volumosa na frente. Abri a porta da loja. Era uma visão bem diferente, tudo escuro, as portas de ferro baixadas, as prateleiras de roupas não pareciam familiar.

Voltei a beijar Rosana, conduzi ela até ao colchão improvisado de camisas dobradas que eu deixei antes de me encontrar com ela. Estávamos nós deitados sobre aquelas camisas (estariam com um cheiro diferente no dia seguinte...) na entrada do estoque. A única luz era do poste de iluminação que entrava pela porta aberta.

Minhas mãos corriam por todo corpo dela. Perfeito. Beijava o pescoço e ela respondia com gemidos. Tirei a camisa. Ela começou a morder meu peito depois com a língua fez círculos que iam descendo cada vez mais.

O zíper do jeans estava machucando meu pênis ereto. Tirei tudo. Ela começou a tirar a blusa, a luz azul do poste dava os contornos dos seios e da cintura. Respirei fundo algumas vezes e tentei pensar em vacas abatidas pra retardar a ejaculação.

Minha primeira transa foi com uma prostituta da Vila Mimosa que a todo momento falava numa voz de tédio “Já gozou, nêm?”. A segunda foi com minha vizinha gorda: até hoje tenho pesadelos onde estou sendo engolido e acordo com uma dor absurda no pinto. Agora era diferente, tinha a impressão que estava vendo algum canal adulto, não era eu que estava ali preste a iniciar o ato.

Estava em êxtase, preparava para me fundir a Rosana quando ouvi o barulho no portão. Meu pau broxou na hora. Seu Evaristo aqui? Essa hora? Seria impossível. Fiquei tentando ouvir mais barulhos, pedi para Rosana ficar em silencio e antes que desse por mim ela já havia vestido a blusa.

Uma sombra passou pela porta aberta. Meu coração disparou. Podia ser só um gato, como podia ser outra coisa também. Fui na ponta dos pés até a porta. O cajueiro do vizinho balançava com o vento.

Botei a cabeça pra fora. Vi o portão que dava pra rua aberto. Eu havia deixado ele assim ou alguém entrou agora? Não me lembrava. Quando virei a cabeça para o outro lado o que vi foi uma arma apontada para minha cabeça.

__ Fica quietinho que nada acontece.

Eram dois: O que empunhava a arma era gordo e fedia a fritura, o outro era alto, corpulento e tinha cara de babaca. Lembrei dos desenhos animados que assistia na casa da patroa da minha mãe na época de moleque: Uma dupla clássica de bandidos das telinhas, e o gordo deveria ser o chefe.

__ Preto, por que tu ta pelado? __ Perguntou o gordo quando entramos na loja. Rosana estava escondida atrás do balcão.

Eu fiquei calado.

__ Preto maluco. __ Ele ligou o interruptor e com as luzes acessas começou a esquadrinhar a loja com os olhos __ Kelson, leva tudo que tu poder que eu vou da uma olhada no caixa.

O bandido grandão ficou me encarando. Pensei que ia me mandar carregar as coisas para o carro deles, ou informar onde o dono guardava dinheiro mas o que ele disse foi:

__ Ae neguinho, como tu ta pelado acho que vou te comer __ E começou a tirar a roupa. Acho que nunca senti tanto medo em toda minha vida.

__ Kelson, olha o que eu achei. __ Disse o gordo agarrando o braço de Rosana que parecia não crer no que estava acontecendo.

__ Tranquilo, eu vou pegar esse neguinho aqui...

Ele realmente estava falando serio? Puta que pariu.

__ Oh, que porra é essa? Ninguém vai me comer não.__ Encarei os bandidos de frente e disse: __ Come a Rosana.

Ela me olhou com tanta raiva que senti arrepios.

__ Caralho Kelson, leva essa porra a serio __ O gordo falava gesticulando com a arma __ Vai pra porta e vê se ta tranquilo o bagulho.__ Então olhou pra mim e disse: __ Ae neguim, vem abri essa porra aqui.

O Gordo se referia a caixa registradora.

Até hoje não sei bem definir o que senti quando comecei a encher a bolsa de lona com dinheiro do caixa. Dois mil trezentos e cinco reais em notas de todos os valores.

Sentia o cano do revolver comprimindo minhas costelas, o cheiro de gordura da jaqueta do ladrão. Sentia medo por mim e por Rosana que agora agachada, tremia e chorava. Vergonha. Precisava ela passar por aquilo? Tão bonita, pelo menos estava vestida. Se estivesse saindo com um cara rico a essa hora estaria numa hidromassagem, rindo, embriagada com algum champanhe cujo o nome eu nunca saberei pronunciar.

Olhava as manchas de sol e as espinhas mal cicatrizadas no rosto do gordo. Via o olhar se iluminando vendo a bolsa ficando mais pesada. Gastará tudo amanhã em drogas, mulheres e talvez, quem sabe, um churrasco para os mais chegados. Mas no outro dia terá de fazer outro roubo, depois outro e outro, e nunca terá nada. Meu ladrão era burro e mais miserável que eu.

__ Ta bom __ O ladrão sorriu __ Kelson, vem cá, me ajuda a amarrar eles aqui.

Estava fascinado pelo chão da loja. Meu pescoço não erguia, nem meus olhos piscavam. Mirava um risco preto deixado pelo salto-alto de uma cliente e me disparava a pensar no que Seu Evaristo diria ao descobrir que a loja fora roubada. Encontrei uma guimba de cigarro próximo a lixeira e os pensamentos foram para o vazio do não ter o que dizer quando me perguntarem o que eu estaria fazendo aqui durante o assalto.

De cabeça baixa senti as cordas pelos meus pulsos e tronco, depois os fortes nós que me amarraram ao balcão de mármore. Escutei os gritos de Rosana, depois o choro sufocado. Não tive coragem de erguer a cabeça.

Acordei com o sol batendo no meu rosto, entrando pela porta aberta. Minha bunda estava dormente pelo chão gelado, o braço tinha sangue coagulado, machucado feito pela corda.

Com esforço consegui erguer a cabeça. Rosana não estava mais lá. As tentativas de me livrar das cordas só apertavam mais os nós. Se continuasse teriam que amputar meus braços por falta de circulação. Voltei a abaixar a cabeça e tentei distrair a fome e o frio pensando em Rosana (que podia ter fugido ou sido levada pelos ladrões), em desculpas que eu irei inventar, em minha provável demissão. Não havia muito o que ser feito: Aquele seria o fim de semana mais longo de todos.

Um comentário:

Unknown disse...
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