* O Homem que roubava sonhos

O homem que roubava sonhos
Francisco Marques




Às vezes acho que ele está morto. Mas ainda me custa muito aceitar a idéia que nunca mais vou senti-lo sentando sobre minha cama e velando meu sono. Meu anjo, meu demônio particular, meu primeiro amor.

Tinha só quinze anos quando invadiu meu quarto pela primeira vez, e ele já carregava em suas costas uma vida maldita de séculos. Eu era uma adolescente ingênua, uma menina, e ele um ser que até hoje não sei bem descrever.

Lembro-me com perfeição do rosto dele, e não importa quanto tempo eu viva continuarei lembrando em cada detalhe. Tinha o rosto afilado, mas não feminino, um nariz grande, mas que o tempo me fez achá-lo simpático, lábios finos e olhos tímidos e intimidadores. Pode isso? Pode alguém ser tímido e intimidador ao mesmo tempo? Pode, ele era assim.

Naquela época, refiro-me ao ano que o conheci, eu era só mais uma menina boba a andar pelas ruas do Rio com minha franjinha, cabelo preto comprido e minha saía de pregas do Pedro II, colégio onde estudava. Acho até que era mais boba que as meninas do colégio, porque enquanto as mais assanhadas já falavam em dormir na casa do namorado e anticoncepcional e tal, eu ainda viajava nas minhas idealizações do primeiro beijo.

Não que eu fosse uma menina-cabeça-de-vento, mas é que nessa idade eu tinha a capacidade de me desligar do mundo com extrema facilidade. Eu ia pra escola pensando em tudo, menos no caminho. Perdi-me umas mil vezes.

Também não vão ficar pensando que eu era autista ou alguma alienada. Eu tinha meu grupo de amigas sim. Anne, Bia e Patrícia. Todas muito mais desinibidas e atiradas que eu. Diziam que eu era bobinha e que meus lábios iriam cair se eu continuasse usando-os apenas pra passar batom, coisa que nem sempre eu fazia.

Anne era a mais foguenta das três. Era mais nova que eu, mas me sentia uma pirralha ao seu lado. Alta, loira, provocativa e dona dos seios mais comentados de todo o colégio.

O aniversario de quinze anos dela seria na mais cara e badalada casa de festas do Rio. Fui convidada, no entanto não senti o gosto da exclusividade já que todo o colégio também o fora, e o fato de pertencer à panelinha dela não me rendeu nada de mais.

Não tenho muita coisa pra contar da festa não. Ri muito, naquela época eu tinha um riso frouxo que personalizava ainda mais meu jeito avoado de ser, não dancei (Dançar, só na frente do espelho. Cantar, só no chuveiro!) e me embriaguei de tanto ouvir fofocas. E dei meu primeiro beijo, dele eu falo mais tarde. O que foi realmente especial aconteceu depois da festa.

Primeiro preciso explicar que naquela época não tínhamos carro. Meu pai era aposentado pela policia civil e minha mãe era o melhor sinônimo para “dona de casa” que podia existir, e como tudo é mais complicado quando se é pobre, só me permitiram ir pra festa depois que meu tio garantiu me buscar assim que saísse do trabalho.

Combinamos que eu o esperaria a partir da uma da manhã. Meia noite e cinqüenta eu já me encontrava sentada no ultimo degrau da portaria, sonolenta, esperando a buzina do Palio preto do tio. Na minha cabeça ainda formigavam as lembranças do beijo. Não fora nada romântico. Posso defini-lo como um balé bizarro de duas bocas que tentavam se casar. Mas sempre desencontros, e dentes, e línguas, e, nojo! Foi horrível!

Aos poucos vi a festa esvaziando. Olhei para o relógio: Uma e vinte cinco. Ele está atrasado, bom, mas acho que é normal atrasar vinte e cinco minutos, ta na tolerância, mas do Leblon pra Lagoa é um pulo! Cadê ele? Uma e quarenta. Todo carro preto que passava me acendia uma esperança que logo se esvaia quando eu o via passar direto. Duas e quinze da manhã. Anne me vê sentada e pergunta se eu quero carona, eu recuso dizendo que meu tio já está a caminho. Duas e meia da manhã. Qualquer carro, preto ou não, me fazia esticar o pescoço esperançosamente.

Nada está ruim o suficiente que não possa piorar. Foi isso o que pensei quando os primeiros pingos de chuva atingiram meu rosto. E foi mais ou menos nesse instante que percebi que não estava tão só assim. Sentado no finalzinho da escada havia um menino vestindo roupas pretas. Fiquei feliz, porque naquele instante eu imaginei que ele também seria um convidado da festa que estaria na mesma condição que eu.

“Você está esperando seu pai?”, perguntei subindo os degraus e sentando perto dele. Onde ele estava sentado ainda tinha a proteção do toldo. Silencio. Ele me ignorou por completo.

Então comecei a prestar atenção em seu rosto. Era bonito,e tinha os cabelos caindo sobre os olhos, um olhar perdido. E o que mais me intrigava é que eu era incapaz de deduzir sua idade. Tinha o rostinho de menino, mas expressões sérias e carregadas como de quem já viu muita coisa.

“Você está triste?”, insisti. Ele de novo não disse nada. Era tão estranho. Será que ele é surdo?

Então me posicionei bem a sua frente, de forma que não tinha como ele esquivar os olhos de mim e disse: “Você está esperando há muito tempo?”, ele olhava fixamente nos meus olhos, parecia querer me enfeitiçar, e por minutos eu realmente não consegui desviar dos seus olhos azuis. “Meu tio vem me...”

“Seu tio não vem”, disse de forma rápida e seca, “Ele está bêbado, dormindo com uma prostituta. Nesse momento ele nem sabe que você existe.”

A vontade que me deu naquela hora foi de bater nele. Mas o choro veio na frente. “Você é um estúpido! Você não pode falar assim!”. As lágrimas escorriam quente, não porque um estranho havia me dito meia dúzia de palavras, mas sim porque, eu tava sozinha, porque meu beijo fora uma porcaria, porque estava frio e escuro, porque eu tinha vontade de ir pra casa, porque meu tio tinha me deixado plantada, porque eu tava com medo daquele menino.

“Se você calar a boca te levo até em casa”, disse ele saindo em direção à chuva que agora mais parecia uma tempestade. Meu choro silenciou instantaneamente quando vi que os pingos esquivavam dele, parecia que ele tinha um guarda-chuva invisível. E como por encanto eu fui seduzida a segui-lo e da mesma forma que acontecia com ele a chuva também não me atingia.

Não lembro sobre o que conversamos, muito menos que caminho tomamos. Só sei que acordei na minha cama, ainda usando a roupa da festa. Poderia ter aceitado que tudo não passara de um sonho besta e vivido sossegada acreditando que dormi na escada e que meu tio me tomou nos braços e me levou até em casa. No entanto não fora isso que acontecera.


Pra começar não havia ninguém em casa. Apenas um bilhete de caligrafia corrida explicava que eles, meu pai e minha mãe, tiveram que levar a bisa às pressas ao hospital e pedia para que eu ligasse pra eles assim que chegasse em casa.

Fazia um dia frio, nublado. A luz do sol vinha peneirada pelas nuvens, de forma que tudo parecia cinzento e triste. Peguei meu casaquinho vermelho e me dirigi ao hospital.

Passei o sábado inteiro conversado com as enfermeiras e lendo as revistas antigas da recepção. Só me deixaram vê a bisa uma vez. Parece que a coisa foi realmente seria. Não me contaram o que acontecera. Deve ter sido coisa de velho, e a bisa tinha noventa e tantos anos. Também descobri, através de minha mãe, que meu tio havia “passado muito mal” na noite passada e que ligara pra saber se eu tinha conseguido uma carona. Assim, na boa: “não vou te buscar, agora se vira ai.”

Não sei se foi pelo estresse trazido pela internação da bisa, mas eles não perguntaram como eu fiz para chegar em casa. O mais engraçado é que eu me senti um tanto abandonada (ninguém liga pra mim!), logo eu que sempre sonhei com o dia que eles largariam do meu pé.

Foi na madrugada daquele mesmo dia que ele invadiu meu quarto pela primeira vez. Lembro-me do cheiro de chuva que entrou assim que ele abriu a janela, da luz da rua que se projetou contra as paredes e da expressão aflita que ele trazia no rosto. Sentou-se na beira da minha cama, olhou para minha direção e como que soubesse que eu estava fingindo dormir me disse: “Não se preocupa, dorme”.

Durante as duas semanas seguintes ele fez a mesma coisa. Sempre do mesmo jeito: Assim que meus pais desligavam as luzes ele surgia, sentava na minha cama e ficava até não sei que horas, por que eu sempre dormia antes.

Aquele ritual, teatro mudo, se repetiu durante um mês. Até que as primeiras palavras ousaram sair da minha boca. Conversamos sobre o tudo e sobre o nada, sobre o tempo e como era engraçado o fato de eu sempre fingir estar dormindo. Ele comentou que nunca havia conhecido ninguém que permitisse que ele se aproximasse tanto. Foi ai que me dei conta de o quanto eu estava hipnotizada, não questionava o fato de um estranho invadir meu quarto diariamente.

Quem é você?, perguntei. Eu não sou nada, respondeu, não sou dono nem da minha sombra. Você tem nome?. Não. Como assim não tem nome?. Não preciso que me chamem. Para uma pessoa dizer que não precisa que lhe chamem é necessário que tenha feito algo muito grave , não é mesmo?. Sim. O que você fez?.

Não foi daquela vez que ele me disse o que realmente fazia e até onde era capaz de ir. As respostas vieram pingadas, de forma que eu me envolvia e me apaixonava a cada ponto acrescentado. Eu não sabia qual era seu nome, mas sabia que ele era o ser mais incrível e complexo que eu já pude conhecer. Era vibrante, obscuro, intelectual e um ladrão, um ladrão de sonhos.

Não acreditaria se alguém me contasse que era capaz de roubar os sonhos alheios, mas vindo dele aquilo soava como algo mais que aceitável. Contou-me como fugira do inferno e como fora amaldiçoado.
Disse que nascera com a estranha capacidade de realizar pra si sonhos dos outros. A principio parece algo complicado, mas é bem simples como ele me explicou: “Se o seu sonho for ficar rico, e caso eu tenho acesso a essa informação no dia seguinte eu descobrirei um tesouro”. Parecia fascinante, e eu daria tudo pra ter aquele dom. Mas ele me explicou que era uma maldição e na verdade de que adianta viver sonhos alheios, se os seus não existem? “Não sonho, e nem tenho esperança em nada. O pior é mais perverso assassino do mundo é melhor que eu, porque ele é capaz de ter desejos e ir atrás deles. Eu sou vazio, vivo do que resta em ti. Vivo da sujeira de tuas unhas. E te pergunto, o que é possuir o oceano e ser o senhor de todas as terras do universo se você não tem a capacidade de apreciar isso?”

Ele era a personificação do que eu entendia como paradoxo. Ele era magro e franzino, mas possuía o poder de mover mares caso lhe fosse possível, ao mesmo tempo que era fraco e perdido. Detentor de um poder que fugia da sua vontade, aliais, esse era seu pior mal, não tinha vontade nem desejos. “todos somos inacabados porque vivemos de sonhos”.Isso era o que ele sempre me dizia, e falava que eu devia ser feliz por isso.

Nossos encontros noturnos continuaram por mais um ano, e então me flagrei ansiosa por suas visitas e quando ele se atrasava ou não vinha era impossível dormir ou descansar. Aos poucos fui percebendo que eu não mais me perdia, e que era simples interpretar o que as pessoas queriam.

Houve uma noite em que ele não veio. Nem no dia seguinte, nem no outro. Não permitiu nem que eu salvasse em minha memória os detalhes de sua ultima visita. Até hoje não sei seu nome e quais eram seus objetivos vindo visitar diariamente uma menina de quinze anos, só sei que a minha vida nunca mais foi a mesma depois que descobri que o que te faz acordar hoje é o que você sonhou ontem.