Estava de cabeça baixa lendo um papel sobre meu colo, o trem chocalhava, o que aumentava ainda mais meu sono. Não lembro exatamente em que estação uma voz carregada de autoridade entrou dizendo que iria deixar alguma coisa ali. Levantei a cabeça, e percebi que no meio do vagão agora existia muitas caixas de biscoito, e sacos de gelo cheios de cerveja e refrigerante.
Uma mulher magra, não consegui calcular sua idade envelhecida pelo cansaço das ruas, depositou quase aos meus pés dois isopores que equilibrava nos ombros ossudos. Como não quebrara ainda? Não o isopor, ela. O isopor repleto de bebidas parecia muito pesado.
Movi meu olhar pelo vagão e percebi que além dos guardas que entraram pela porta ao meu lado havia mais três na próxima porta. Os ambulantes bebiam cerveja, acredito que faziam isso para não sentirem o gosto de terem perdido tudo, bebiam a própria mercadoria que os guardas permitiam que eles tocassem. Falavam alto, sem olhar para os usuários do trem que se alternavam entre a indignação muda e o desinteresse.
Na estação de São Cristóvão mais confusão e falatório, e um gancho de bala é posto a pendular na barra sobre o banco onde eu estava sentado. O dono daquele gancho era o mais indignado. Sei que tentou convencer os guardas para reaver sua mercadoria, mas sem sucesso. Uma lata de cerveja foi posta na sua mão quando o olhei de novo, ele reclamava dizendo que não conseguia beber quando sabia que algo estava errado. "...Por exemplo, não consigo beber quando minha cabeça está preocupada com meu filho doente". O filho doente dele naquele momento era os saquinho de balas.
Teve uma vez que peguei um trem no sentido de Japeri e ao longo da viagem vi passar pelo corredor uma verdeira feira. Vi vender de brinquedo, batata frita, bala, bebida, Cd's e até queijo e goiabada. Não consegui ouvir musica, o som no meu celular era abafado pelo ruído das pesadas rodas sobres os trilhos gastos e pela gritaria dos vendedores. Não queria ver vendedor nenhum. Era como propagandas que saltavam da Tv e me obrigavam a assistir suas performances. Na feira era menos pior porque quando eu ia a feira eu sabia o que iria encontrar. No valor da minha passagem não estava embutido o preço daquela gritaria.
Mas naquele momento, vendo o rosto de cansaço e abatimento deles, meus ouvidos os perdoaram e me perguntei até onde um homem tem que ir para sobreviver. O trabalho dos guardas também não era dos melhores : Arrancar mercadorias das mãos de pobres fodidos não deve ser muito prazeroso.
O trem continuo chocalhando, do meu texto eu não li nada, não apareceram mais infelizes para se somarem aqueles. As reclamações não mudaram a entoada e a plateia continuou sem esboçar reação para aquela peça de poucos atos. Em Madureira eu desci.