quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Sexta!





A vontade de urinar estava acima do suportável. Se fosse um ser oco, sem órgãos, o xixi já teria subido a região da bexiga e estaria quase chegando ao peito. A imagem bizarra criada quase o fez rir, o que é trágico para alguém que está muito apertado. Subiu as escadas do bar correndo, sem falar com os garçons conhecidos, deu um chute na porta e ... A melhor sensação é se livrar do que incomoda. 

Lavou as mãos, se olhou no espelho e admirou o rosto cansado. Sexta-feira. Sexo e cerveja. A cerveja com certeza arranjaria fácil, daqui a pouco os amigos de copo iriam surgir, mas o primeiro estava difícil de saciar.
Era um homem muito seletivo, ter sido casado com uma mulher muito bonita criava nele uma cobrança de nunca descer o nível. Mulheres bonitas por ai é o que mais tem, pensava ele, mas um corpo vazio não vale.

Sentou em uma das mesas colocadas na calçada. A noite estava quente e ficar do lado de fora favorecia a observação das pessoas.E isso ele gostava de fazer: Observar pessoas. afrouxou a gravata, descalçou o sapato e pediu um chopp.

Veio russinho, como muitos dizem por ai, o caneco congelado por fora e pousou sobre o tampo da mesa de madeira. O primeiro gole é sempre o melhor! Levantou a mão e pediu uma porção de frango a passarinho, regado no alho, como gostava.

Enquanto observava as meninas que iam e viam pela rua, esticou-se na cadeira apoiou o braço no recosto, e olhou a lua. Era como um sorriso, e bem naquela hora Vênus havia se alinhado de tal maneira que era como um olho sobre aquele sorriso. Era o céu "piscando" em acordo com ele. E tudo daria certo, e as coisas de segunda deixa para segunda. 


domingo, 9 de junho de 2013

O Trem

Estava de cabeça baixa lendo um papel sobre meu colo, o trem chocalhava, o que aumentava ainda mais meu sono. Não lembro exatamente em que estação uma voz carregada de autoridade entrou dizendo que iria deixar alguma coisa ali. Levantei a cabeça, e percebi que no meio do vagão agora existia muitas caixas de biscoito, e sacos de gelo cheios de cerveja e refrigerante.

Uma mulher magra, não consegui calcular sua idade envelhecida pelo cansaço das ruas, depositou quase aos meus pés dois isopores que equilibrava nos ombros ossudos. Como não quebrara ainda? Não o isopor, ela. O isopor repleto de bebidas parecia muito pesado.

Movi meu olhar pelo vagão e percebi que além dos guardas que entraram pela porta ao meu lado havia mais três na próxima porta. Os ambulantes bebiam cerveja, acredito que faziam isso para não sentirem o gosto de   terem perdido tudo, bebiam a própria mercadoria que os guardas permitiam que eles tocassem. Falavam alto, sem olhar para os usuários do trem que se alternavam entre a indignação muda e o desinteresse.

Na estação de São Cristóvão mais confusão e falatório, e um gancho de bala é posto a pendular na barra sobre o banco onde eu estava sentado. O dono daquele gancho era o mais indignado. Sei que tentou convencer os guardas para reaver sua mercadoria, mas sem sucesso. Uma lata de cerveja foi posta na sua mão quando o olhei de novo,  ele reclamava dizendo que não conseguia beber quando sabia que algo estava errado. "...Por exemplo, não consigo beber quando minha cabeça está preocupada com meu filho doente". O filho doente dele naquele momento era os saquinho de balas.

Teve uma vez que peguei um trem no sentido de Japeri e ao longo da viagem vi passar pelo corredor uma verdeira feira. Vi vender de brinquedo, batata frita, bala, bebida, Cd's e até queijo e goiabada. Não consegui ouvir musica, o som no meu celular era abafado pelo ruído das pesadas rodas sobres os trilhos gastos e pela gritaria dos vendedores. Não queria ver vendedor nenhum. Era como propagandas que saltavam da Tv e me obrigavam a assistir suas performances. Na feira era menos pior porque quando eu ia a feira eu sabia o que iria encontrar. No valor da minha passagem não estava embutido o preço daquela gritaria.

Mas naquele momento, vendo o rosto de cansaço e abatimento deles, meus ouvidos os perdoaram e me perguntei até onde um homem tem que ir para sobreviver. O trabalho dos guardas também não era dos melhores : Arrancar mercadorias das mãos de pobres fodidos não deve ser muito prazeroso.

O trem continuo chocalhando, do meu texto eu não li nada, não apareceram mais infelizes para se somarem aqueles. As reclamações não mudaram a entoada e a plateia continuou sem esboçar reação para aquela peça de poucos atos. Em Madureira eu desci.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Em 2003...






Isso começou há uns seis meses pelo menos. Os remanescentes da turma, que teimam em se encontrar e rir das mesmas piadas, que a cada ano perde um detalhe, entre um chopp e outro lembraram que em algum dia do mês de março faríamos dez anos que a turma foi colocada numa mesma sala pela primeira vez. .

Aqueles ali sentados na mesa de um barzinho ainda eram os mesmo, os apelidos e trejeitos ainda eram os mesmos. Mas a rotina não: Antes passávamos o dia inteiro juntos, e entre uma aula e outra havia tempo de sermos simplesmente nós mesmos. Naquele bar o uniforme era diferente do usado há dez anos atrás, o jaleco agora era substituído por uma camisa social.

A tal data chegou e passou. Os esforços de uma festa antes tão planejada não aconteceu. Esta ultima semana foi preenchida de saudosismo e ainda me custa aceitar uma lista de presença com cada vez menos nomes.

Os anos de 2003 a 2005 foram anos de ebulição. E sei que foram também para muita gente que estudou comigo e teve a oportunidade de participar de rodas de violão no patio, ou simplesmente "O bosque", do carteado nos bancos azuis, do barzinho de nome exótico, do futebol ao meio-dia, do pastel do china e todas as coisinhas que para gente era tão peculiares e impressivas que acreditávamos serem só nossas.

Lembro do cheiro das árvores às sete da manhã, e das histórias de segunda sobre o fim de semana, dos trabalhos em grupo, dos romances que se desenrolavam e dos que não iam tão bem assim.

Antes que eu me dê por mim sei que estarei aqui ou em algum outro lugar escrevendo sobre os próximos dez anos, talvez a lista de presença tenha encurtado mais ainda ou quem sabe tenha surgido mais nomes e agregados.De qualquer forma apesar de todos os medos e desafios tenho salvo em mim aqueles anos como um ponto de refugio na minha memória, e resgatar aquelas recordações me faz rir, me acalma e traz paz.
   



domingo, 10 de março de 2013

Descanse em Paz

E ela estava ali, mas não estava. Era a primeira vez que me defrontava com um morto. Era a tia que estava ali dormindo, a mesma que até algumas semanas atras estava magrinha e desanimada lutando contra o câncer, mas eu sabia que aquele sono seria bem mais duradouro.

Meus mortos nunca foram muito meus vivos. Meus avós morreram em outros estado, e de doenças longas, daquelas que a família, por mais otimista que seja, lá no fundo começa a se preparar para despedida. Dessa forma nunca fui a um cemitério. Para mim sempre foi distante a imagem de pessoas chorando em um velório. 

Eu era inexperiente naquilo, não sabia como cumprimentar as pessoas. Apenas as abraçavas e não falava nada. Não sabia se era certo pergunta "tudo bem?" como faço comumente, porque sabia que não estava tudo bem. 

Sentei no banco ao lado do caixão. Na capela pequena, alguns choravam desmedidos, outros como eu só miravam o vazio. As duas vezes que chorei, chorei pelos vivos: pela dor do meu pai a passar a mão nos cabelos da irmã morta e da minha prima que chorava desconsolada. 

Estava distraído quando levaram o corpo para dentro do carro que seguiu, acompanhado por todos os amigos e familiares em ritmo de procissão, até o local do sepultamento. O calor era insuportável, o sol das duas da tarde ardia sobre nossas cabeças e roupas pretas. Minha mãe aproximou-se de mim e pediu para não afastar-me dela, que sua pressão não estava legal. 

Caminhamos por alguns minutos em meio aos incontáveis jazigos e lápides. Ajudei a carregar o caixão até a cova. Rezamos e depois deixamos que o coveiro fizesse seu papel. Fiquei observando-o, lacrando a cova. 

Houve uma época em que eu tinha medo da morte. Em outra me amedrontava apenas a ideia de quanto tempo ainda teria. E certa vez, como a minha vida seria tirada de mim era o que me assustava. Hoje não cultivo esses pensamentos. Ainda não decidi se viver pensando na morte é abdicar da vida ou conscientizar da importância e da fragilidade que são os dias de pulmão cheio.  




domingo, 3 de março de 2013

De Cemitérios a Calopsitas



Enquanto tentava limpar o quarto ela não parava. Ia e vinha, tentava mordiscar o pano, abria as asinhas, assobiava alto e todas as vezes que saia do quarto para pegar alguma coisa se apressava para ir na minha frente. Aquela brincadeira, mesmo que eu não estive nela diretamente parecia alegrar a calopsita aqui de casa. Fiquei observando-a, ela totalmente alheia aos meus problemas, a minha impaciência. A calopsita parecia tão entretida com meu entre e sai do quarto e em correr atras de mim. Felizes são esses bichinhos, o mundo dela praticamente se resume as paredes do meu apartamento mas ela parece não precisar de muito para ficar em paz.

Talvez a chave da felicidade esteja nos referenciais que colocamos a ela, na quantidade de atributos que devemos preencher para estarmos tranquilos. Aquela tal piramide de necessidades que devem ser supridas para nos sentirmos bem: comida, abrigo, entretenimento e por ai vai...

Bom, também tem outro fator que talvez poucas pessoas reparem: Somos seres sociais, ou pelo menos deveríamos ser, e sempre haverá alguém próximo fazendo algo parecido e é inevitável as comparações. Criamos parâmetros subliminares e atribuímos valores de comparação. Queremos ser melhores que os outros, queremos ter mais que os outros, e se eles tem por que não podemos ter também?

Somos avaliados e comparados numa velocidade e com pretextos e explicações ralas. Talvez uma das portas da infelicidade esteja nesse vazio. De queremos alcançar e superar algo que nem ao menos entendemos ou conseguimos ver. Homens não são peças de uma máquina que se enxergam em números de rendimento.

Lembrei também de um texto de Machado de Assis, que inicia-se em um em cemitério, e para infelicidade do falecido o dia não estava de luto com ele. Era um dia bonito de sol... Acho uma estranha coincidência a maioria dos dias de finados serem chuvosos. Não necessariamente o mundo tem de estar complacente a minha infelicidade. E a calopsita tem todo o direito de brincar e ignorar minhas preocupações.


sábado, 2 de março de 2013

Pois quinze é muito bom!

Entediado num sábado chuvoso, com a mão no mouse, a barra de deslizar da janela de um site de relacionamento na internet ia e vinha e eu a procura de algo que valesse a pena pra desperdiçar meu tempo. Não que eu não tenha coisas pra fazer, pelo contrario, há pilhas de livros que só foram lidos até a quinta página, artigos a serem estudados, mochila e outras coisas para colocar em ordem... Mas nada disso me atrai agora. O próprio site não estava me entretendo, e o tédio quando não bem tratado se desenrola em desanimo e depois tristeza.

Os pensamentos vagavam distantes bem longe da tela, quando voltou ao foco vi que uma amiga havia comentado sobre o aniversário de uma amiga dela. No texto ela dava parabéns pela data e dizia "Quinze é muito bom!". A minha amiga já havia passado dos quinze e provavelmente alguém já dissera a mesma frase para ela e com certeza ela não refletira muito sobre isso.

Em todas as minhas fases sempre teve alguém dizendo: "Ai meus 15 anos!", "Oh meus 18 anos", "21! Idade boa!". O tempo passou e hoje já soma-se dez aos meus quinze e sei que deve ter muita gente dizendo que aos 25 é que eram felizes e cheias de energia.

Quando olho para trás não sei se aos quinze, dezoito ou vinte e um anos a minha vida era mais fácil. Minhas preocupações eram diferentes, isso sim! E quando tinha quinze anos e estava naquela ansiedade de passar em todas as matérias e ficar com as meninas do colégio, estas eram minhas preocupações. Quando estava tentando passar no vestibular e procurando o primeiro estagio ao dezoito, para mim naquele momento aquelas eram preocupações serias. Não que realmente não fossem, mas a medida que o tempo passa começamos a acreditar que a vida era mais fácil antes. Mas uma coisa eu devo dizer: "A charada fica fácil depois que é dada a resposta".


segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Feliz 2013!

Os anos cavalgam cada vez mais de pressa a medida que envelheço. Parece uma peça do tempo, a medida que conheço o mundo mais ele se acelera diante de mim. E assim foi este ano. Fatos que aconteceram há meses e outros há dias se misturam na minha retrospectiva como se tudo tivesse acontecido ontem.

Ser desafiado ao novo me surpreendeu de uma forma que nem nas minhas mais otimistas expectativas eu poderia supor. "Sair da zona de conforto", esse talvez seria o melhor subtítulo para o meu 2012. Aprendi muito, e aprendi principalmente a ter paciência.

Desejo que no ano de 2013 existam muitos dias de corações leves, de conversas demoradas ao telefone, de risos altos, de brindes e comemorações, de beijos, de passeios sob o luar, de banho de mar, de cheiro de bolo assando e outras coisas boas. Feliz 2013!