Meus mortos nunca foram muito meus vivos. Meus avós morreram em outros estado, e de doenças longas, daquelas que a família, por mais otimista que seja, lá no fundo começa a se preparar para despedida. Dessa forma nunca fui a um cemitério. Para mim sempre foi distante a imagem de pessoas chorando em um velório.
Eu era inexperiente naquilo, não sabia como cumprimentar as pessoas. Apenas as abraçavas e não falava nada. Não sabia se era certo pergunta "tudo bem?" como faço comumente, porque sabia que não estava tudo bem.
Sentei no banco ao lado do caixão. Na capela pequena, alguns choravam desmedidos, outros como eu só miravam o vazio. As duas vezes que chorei, chorei pelos vivos: pela dor do meu pai a passar a mão nos cabelos da irmã morta e da minha prima que chorava desconsolada.
Estava distraído quando levaram o corpo para dentro do carro que seguiu, acompanhado por todos os amigos e familiares em ritmo de procissão, até o local do sepultamento. O calor era insuportável, o sol das duas da tarde ardia sobre nossas cabeças e roupas pretas. Minha mãe aproximou-se de mim e pediu para não afastar-me dela, que sua pressão não estava legal.
Caminhamos por alguns minutos em meio aos incontáveis jazigos e lápides. Ajudei a carregar o caixão até a cova. Rezamos e depois deixamos que o coveiro fizesse seu papel. Fiquei observando-o, lacrando a cova.
Houve uma época em que eu tinha medo da morte. Em outra me amedrontava apenas a ideia de quanto tempo ainda teria. E certa vez, como a minha vida seria tirada de mim era o que me assustava. Hoje não cultivo esses pensamentos. Ainda não decidi se viver pensando na morte é abdicar da vida ou conscientizar da importância e da fragilidade que são os dias de pulmão cheio.
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